quinta-feira, 8 de novembro de 2012

HUMANA(MENTE)

Tenho medo da sombra
Tenho medo da luz
Tenho medo do pagão
Tenho medo da cruz
 
Tenho medo pelo que rogo
Tenho medo do que não peço
Tenho medo do fracasso
Tenho medo do sucesso
 
Tenho medo do que é santo
Tenho medo do que é pecado
Tenho medo do frouxo pranto
Tenho medo do pranto abafado
 
Tenho medo do azar
Tenho medo da sorte
Tenho medo da vida
Tenho medo da morte
 
Tenho medo do que reverbera
Tenho medo do que é mudo
Tenho medo do nada
Tenho medo de tudo

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

UM DESENCONTRO REAL

                       
                         Desejando percorrer com os cinco sentidos aquele espectro de possibilidades, não deixava o pássaro partir, mesmo admirando seu voo. Aquela tez branca, os olhos de esmeralda e as finas madeixas multicor, emolduradas pelos sopros de Deus, davam à causa uma complexidade ainda mais tônica. Se pudesse escolher, certamente se vestiria com aqueles trajes rebeldes e despretensiosos; entraria naquela cápsula arredia sem data marcada para retorno, mordiscando-lhe as orelhas, respirando junto a sua nuca e perdendo o eixo na comissura de seus lábios. Foram anos e anos teclando amenidades, intimidades, amores e desencontros. Vicente bem que tentara, mas Cecília nunca lhe concedeu um encontro real. Assim, foi condenado a se alimentar de um sonho desiludido, vivendo a realidade paralela das sensações idealizadas, da sintonia perfeita. E Cecília? Bem, Cecília continuou a caminhar pra frente, tanto quanto Vicente, embora jamais tenha privado seus olhares do vasto e colorido campo de visão lateral.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ENFIM, ISABELLE!




                  Agora parece ser definitivo: Isabelle finalmente conseguiu despejar os pesados fardos amorosos que carregava. Nunca entendeu, ao certo, por qual motivo suas histórias sempre acabavam mal. Depois de um longo período sabático, refletiu que, talvez, seus envolvimentos pretéritos tenham fracassado por seu excesso de doação. Então, decidiu virar o jogo. Chega de mimos e transparências reveladoras em inícios de relacionamentos, pensou ela. Enfim, aquela mulher sensível, linda e inteligente recobrara sua plenitude. Estava confiante e segura de si; parecia mesmo outra pessoa. O estranho foi observar sua dedicação e sua doçura repentinas, após tantas promessas íntimas, a mimos anteriormente renegados; ela estava fazendo tudo o que tinha resolvido banir – preparava, com amor, cada refeição dele, arrumava sua cama, gastava horas com 'conversinhas moles' e brincadeiras. Das duas uma: ou ele merecia muito aquela devoção toda ou sua transformação causara uma firmeza tão inabalável que foi capaz de mudar diametralmente o seu ponto de vista; pode ser que, agora, ela estivesse conseguindo se dar sem se doer. Aquela situação era simplesmente uma grande incógnita, quase como um objeto sem sombra na mais escancarada das manhãs de sábado. Especulações à parte, o fato é que Ulisses era mesmo um labrador de sorte – apenas ele conheceu a melhor das 'Isabelles', harmoniosa, meiga e convicta.