quarta-feira, 1 de agosto de 2012

UM DESENCONTRO REAL

                       
                         Desejando percorrer com os cinco sentidos aquele espectro de possibilidades, não deixava o pássaro partir, mesmo admirando seu voo. Aquela tez branca, os olhos de esmeralda e as finas madeixas multicor, emolduradas pelos sopros de Deus, davam à causa uma complexidade ainda mais tônica. Se pudesse escolher, certamente se vestiria com aqueles trajes rebeldes e despretensiosos; entraria naquela cápsula arredia sem data marcada para retorno, mordiscando-lhe as orelhas, respirando junto a sua nuca e perdendo o eixo na comissura de seus lábios. Foram anos e anos teclando amenidades, intimidades, amores e desencontros. Vicente bem que tentara, mas Cecília nunca lhe concedeu um encontro real. Assim, foi condenado a se alimentar de um sonho desiludido, vivendo a realidade paralela das sensações idealizadas, da sintonia perfeita. E Cecília? Bem, Cecília continuou a caminhar pra frente, tanto quanto Vicente, embora jamais tenha privado seus olhares do vasto e colorido campo de visão lateral.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ENFIM, ISABELLE!




                  Agora parece ser definitivo: Isabelle finalmente conseguiu despejar os pesados fardos amorosos que carregava. Nunca entendeu, ao certo, por qual motivo suas histórias sempre acabavam mal. Depois de um longo período sabático, refletiu que, talvez, seus envolvimentos pretéritos tenham fracassado por seu excesso de doação. Então, decidiu virar o jogo. Chega de mimos e transparências reveladoras em inícios de relacionamentos, pensou ela. Enfim, aquela mulher sensível, linda e inteligente recobrara sua plenitude. Estava confiante e segura de si; parecia mesmo outra pessoa. O estranho foi observar sua dedicação e sua doçura repentinas, após tantas promessas íntimas, a mimos anteriormente renegados; ela estava fazendo tudo o que tinha resolvido banir – preparava, com amor, cada refeição dele, arrumava sua cama, gastava horas com 'conversinhas moles' e brincadeiras. Das duas uma: ou ele merecia muito aquela devoção toda ou sua transformação causara uma firmeza tão inabalável que foi capaz de mudar diametralmente o seu ponto de vista; pode ser que, agora, ela estivesse conseguindo se dar sem se doer. Aquela situação era simplesmente uma grande incógnita, quase como um objeto sem sombra na mais escancarada das manhãs de sábado. Especulações à parte, o fato é que Ulisses era mesmo um labrador de sorte – apenas ele conheceu a melhor das 'Isabelles', harmoniosa, meiga e convicta.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

VOCÊ É BOLO COMUM?

A todo instante, a vida nos surpreende com situações inusitadas. Muitas vezes, discutimos, brigamos, aborrecemo-nos, decepcionamo-nos e, no momento seguinte, arrependemo-nos, perdoamos, fazemos as pazes. Elaboramos conceitos complicados sobre coisas e pessoas e, simplesmente, mudamos de opinião. Abandonamos cursos, acabamos namoros, engatamos novos relacionamentos, tiramos pedras do caminho, perdemos pessoas queridas, fazemos amigos e também os deixamos partir. Tudo isso faz de nossa experiência um caso isolado, uma trajetória sem precedentes, um caminho trilhado a partir dos nossos erros e acertos.

Somos seres absolutamente distintos vivendo em um mundo feito sob uma medida específica – “tamanho único”. Assim, modelamos nossa natureza primitiva e até conseguimos racionalizar nossos instintos, como forma de tentar conviver socialmente em um espaço sem variações – “P”, “M” ou “G”. Mas viver transcende os limites da razão.

Mesmo sendo educados para viver em conformidade com uma série interminável de ditames sociais, quebramos regras, excedemo-nos, violamos princípios, esquecemo-nos de pensar no próximo e ultrapassamos as fronteiras da moral e da ética.  Ok! Somos, segundo os valores cristãos, pecadores, pois não conseguimos viver em harmonia com aqueles mandamentos que, antes de figurarem como máxima religiosa, representam verdadeiras normas de conduta, regras do bom viver.

Pecamos sim, é verdade. No entanto, nossos pecados não são análogos, uma vez que somos seres diferentes pela própria natureza. Não carregamos a mesma carga genética, não fomos criados pela mesma família, não estudamos no mesmo colégio, não tivemos os mesmos amigos, não levamos os mesmos tombos, não quebramos a cara com as mesmas coisas.

Assim, toda teoria que generaliza demais fraqueja! Sim, repetimos comportamentos, mas isso não nos torna iguais. Respiramos, alimentamo-nos, bebemos água, excretamos e secretamos substâncias, dormimos, eliminamos gases, suamos, amamos, desamamos, choramos, sorrimos, nascemos e vamos morrer um dia. Ainda assim, não somos seres idênticos.

Por tudo isso (e muito mais), abomino os comentários genéricos, pois levam sempre ao geral, a características/elementos/teses supostamente universais.  Se a verdade se resumisse a essa aparente simplicidade, viveríamos vidas previsíveis e medíocres; todos os cachorros seriam amigos, todos os gatos traiçoeiros, todas as mulheres interesseiras, todos os homens “galinhas”, todos os homossexuais extravagantes, todos os políticos corruptos e todas as guerras seriam santas.

Qual graça teria a vida? Viver assim eliminaria a nossa essência de singularidade; seríamos produzidos em série, com extensos códigos de barra e um único manual de instrução. Somos ímpares justamente por nossas histórias peculiares, nossas experimentações incomuns e pela bagagem sempar que carregamos.

Para alguns, somos apenas a compilação de um conjunto pré-estabelecido de padrões reiterados que foram sendo repetidos ao longo de toda a história da Humanidade. É claro que não somos seres inteiramente dissociados desse contexto, mas não podemos com ele ser confundidos. Não somos apenas isso. Pelo menos para mim, definitivamente não somos! Todavia, como meus postulados não encerram a verdade absoluta, termino com uma reflexão pessoal e intransferível:  Você é bolo comum?