segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

IMPÁVIDA MUDANÇA


Abre as asas do teu falcão
Num desgarrar das certezas da mente
Segue a tua intuição
Faz tudo diferente
 
Voa, voa lá no céu
Para bem longe dos descrentes
Rompe o ranço desse véu
Desperta os sonhos dormentes
 
A mudança é teu brasão
A coragem tua patente
Onde os fracos veem o não
Vê a força da semente
 
Não temas a opção
Ou o arrependimento lá na frente
Se a vida te der uma lição
Muda tudo novamente

terça-feira, 4 de junho de 2013

AS ESCOVAS E O AMOR

 
Tenho uma estranha mania – todas as vezes que compro uma escova nova, costumo nutrir a fantasia eletiva de que, dessa vez, ela não acumulará fios e mais fios. Nem preciso dizer que, nesse caso, a decepção é caminho implacável, não é mesmo?! Quase sempre é mais fácil comprar outra escova do que mudar a postura diante daquele objeto, promovendo os cuidados habituais que o mesmo requer. Todos nós temos a perfeita consciência de que, nova ou velha, qualquer escova, com o uso reiterado, pode chegar a aglomerar uma verdadeira peruca, mas gostamos de acreditar que, adquirindo um utensílio novo, resolveremos o problema daquela escova que apinhou mais que um punhado de fios. Grande erro!
 
Para que permaneça sempre limpa e adequada ao fim a que se destina, uma escova demanda de nós uma atitude ativa; exige que desaceleremos o nosso ritmo, reorganizando as mil prioridades da nossa rotina cada vez mais apressada e recheada de “necessidades individuais urgentes”. Assim, temos que, forçosamente, parar um pouco e apenas exercitar a paciência de remover fio a fio daquele emaranhado que vai se formando. Acontece que fazer isso uma única vez não soluciona a questão; a escova, inexoravelmente, voltará a colecionar as nossas madeixas. E é nesse momento que começamos a divisar o ponto crucial – enquanto não internalizarmos a convicção de que os cuidados devem acompanhar a frequência do uso, compraremos uma escova após outra, atacando o problema sempre na consequência, desprezando a causa.
 
Quando construímos novos hábitos, a visualização de determinados aspectos resta absolutamente evidente; acabamos por perceber na prática que, quanto mais demoramos a higienizar a escova, mais tortuoso é o momento da limpeza, posto que ela terá somado mais cabelo e mais sujeira. Percebemos, também, que remover os fios com habitualidade não faz com que não se acumulem, mas torna a tarefa bem mais simples e rápida, provocando uma verdadeira transformação na natureza daquele objeto – passa do bem descartável que desprezávamos ao bem durável que nos acompanhará por um longo tempo.
 
Com o Amor, funciona exatamente da mesma forma. Há pessoas que, por preguiça, por um senso extremado de individualismo, por altivez, por pressa, por receio, ou mesmo por egoísmo, diante da nossa realidade cada vez mais repleta de efemeridades, “pulam” conversas, adiam, de maneira vã, tentativas de consenso e encobrem conflitos. Muitas vezes, simples e breves diálogos poderiam ser bastante resolutivos, mas os seres teimam em evitá-los, criando, através dessas incoerentes convivências lacônicas, verdadeiros monstros relacionais, materializando obstáculos que eram pequenos e ficaram gigantes e intransponíveis pelo descaso.
 
Quando esses mesmos seres dão por si, a escova está bem ali, diante dos seus olhos, cheia de fios. A solução que lhes parece mais natural é sempre coincidente com o escapismo, num ensaio eterno de evitar o inevitável. Logo, jogam aquela escova e compram uma nova, acreditando que, dessa vez, não juntará mais cabelo. Seguem, assim, emendando relacionamentos, banalizando sentimentos e descartando pessoas, pois, ao surgir o conflito, afigura-se-lhes muito mais tentador livrar-se da situação supostamente importunadora do que ter a disposição afetiva de “se dar ao trabalho” de buscar a composição. Contudo, bem como nas escovas, os conflitos voltam a aparecer e os indivíduos voltam, por conseguinte, a descartar os outros.
 
Os descartes, todavia, não eliminam os conflitos, uma vez que os mesmos não tardarão a aparecer novamente. Consolida-se, então, a roda viva tão bem descrita na música Deixamos pra depois uma conversa amiga, que fosse para o bem, que fosse uma saí­da/ Deixamos pra depois a troca de carinho, deixamos que a rotina fosse nosso caminho/ Deixamos pra depois a busca de abrigo, deixamos de nos ver fazendo algum sentido/ Amanhã ou depois, tanto faz se depois for nunca mais...”. E ao olhar pra trás, após o transcorrer dos anos, essas pessoas se veem sozinhas, profundamente arrependidas de muitos dos descartes que fizeram, e, na maioria dos casos, essa reflexão ocorre quando já é tarde demais.
 
Por isso, cuidemos de nossas escovas, abandonemos os “universos exclusivos” e valorizemos os bens duráveis, pois a felicidade e a harmonia não comportam existências passivas; são, na verdade, prêmios conferidos somente aos que, de corpo e alma, entregam-se ao laudável propósito da dedicação continuada.




terça-feira, 7 de maio de 2013

FESTIVAL "VARILUX" DE CINEMA


E, por falar em "X da questão", enquanto o Eike chora por estar um pouquinho "menos bilionário", um casal de namorados da cidade maravilhosa tenta se entender ao telefone:

- Amor?

- Falaê, Vic!
- Pensei numa coisa legal, lindo, pra gente fazer nesse final de semana.
- Tá bom, Vic. Mas c pode falar rapidão? É que tô vendo o jogo aqui.
- Tá! Bê, que tal se a gente fosse ver um filminho no sábado? É que começou o Festival Varilux de Cinema e...
- Filho da p...!
- Bernardo, c tá louco? Foi comigo isso?
- Claro que não, né, Vic! São esses caras desse time que ficam dando mole pro adversário. Eu fico muito irado com isso. Mas o que c tava falando mesmo?
- Do cinema, Bê!
- Ah, no sábado? Formou, então. Tinha falado com uns moleques lá da facul que tem vários filmes sinistros passando. Tem "Homem de Ferro 3", "Em transe"... Qualquer um tá bom pra mim.  A gente pode combinar de ir ver esse negócio de óculos pra você outro dia. Aliás, seu grau mudou?
- Tutututututu...
- Victória? Hum... Deve ter se ligado que não dava pra perder os lances dos caras agora! Vou combinar com a molecada e, depois, dou a ideia do esquema nela. Partiu mengão!

Homens: seres complexos, brilhantes, imprevisíveis e interessantes... Só que não!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

REHAB


Hoje pela manhã, tive uma recaída. Pois é... Sei que todos dirão que ter recaídas é algo relativamente comum durante o processo de recuperação. Mas dá muita raiva! Bate aquela sentimento de impotência diante do hábito e da imperiosa força das tendências. Mais do que isso: vem aquele arrependimento junto com a impressão de que demos mil passos para trás; dá “aquela coisa ruim” perto do diafragma que sinaliza quando o emocional já está sabotando o nosso físico. E eu estava até indo bem, sabe?! Pelas minhas contas superficiais, estava há incríveis vinte e três dias sem “me trair”. A terapia estava rendendo a experiência maravilhosa da fantástica viagem para dentro. Amigos e familiares permaneciam ali, o tempo todo do meu lado, entusiasmando minhas intenções, minha tímida vontade de seguir em frente! Confesso, no entanto, que é muito difícil. A abstinência certamente mereceria uma outra história ao lado da história – uma sensação corrosiva de aprisionamento aos terríveis, e velhos conhecidos, fluxos mentais de pensamentos reiterados pela necessidade de algo. Acho que aquilo de “ser gauche na vida”, Drummond escreveu pra mim! Mas não temo a culpa. Realmente, fui fraco e devo confessar minha derrapada (meu terapeuta sempre diz que isso representa importante passo para o êxito). Vítima do próprio vício, hoje pela manhã, tive uma recaída – mais uma vez, atendendo ao instinto, fui tentar ser bonzinho e acabei bancando o trouxa! Só digo uma coisa: esse vício de ser BESTA ainda vai acabar comigo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ELEGIA À MUDANÇA


Como é bom ter na vida desenganos
Como é bom ter desencantamentos
Como é bom mudar de planos
Como é bom se dar um tempo

Como é bom cruzar o rio
Como é bom o entre águas
Como é bom ter desafios
Como é bom superar traumas

Como é bom ter desilusão
Como é bom abrir a mente
Como é bom sacudir o coração
Como é bom pensar diferente

Como é bom abafar a emoção
Como é bom o travar do dente
Como é bom aprender a lição
Como é bom seguir em frente
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

HUMANA(MENTE)

Tenho medo da sombra
Tenho medo da luz
Tenho medo do pagão
Tenho medo da cruz
 
Tenho medo pelo que rogo
Tenho medo do que não peço
Tenho medo do fracasso
Tenho medo do sucesso
 
Tenho medo do que é santo
Tenho medo do que é pecado
Tenho medo do frouxo pranto
Tenho medo do pranto abafado
 
Tenho medo do azar
Tenho medo da sorte
Tenho medo da vida
Tenho medo da morte
 
Tenho medo do que reverbera
Tenho medo do que é mudo
Tenho medo do nada
Tenho medo de tudo

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

UM DESENCONTRO REAL

                       
                         Desejando percorrer com os cinco sentidos aquele espectro de possibilidades, não deixava o pássaro partir, mesmo admirando seu voo. Aquela tez branca, os olhos de esmeralda e as finas madeixas multicor, emolduradas pelos sopros de Deus, davam à causa uma complexidade ainda mais tônica. Se pudesse escolher, certamente se vestiria com aqueles trajes rebeldes e despretensiosos; entraria naquela cápsula arredia sem data marcada para retorno, mordiscando-lhe as orelhas, respirando junto a sua nuca e perdendo o eixo na comissura de seus lábios. Foram anos e anos teclando amenidades, intimidades, amores e desencontros. Vicente bem que tentara, mas Cecília nunca lhe concedeu um encontro real. Assim, foi condenado a se alimentar de um sonho desiludido, vivendo a realidade paralela das sensações idealizadas, da sintonia perfeita. E Cecília? Bem, Cecília continuou a caminhar pra frente, tanto quanto Vicente, embora jamais tenha privado seus olhares do vasto e colorido campo de visão lateral.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

ENFIM, ISABELLE!




                  Agora parece ser definitivo: Isabelle finalmente conseguiu despejar os pesados fardos amorosos que carregava. Nunca entendeu, ao certo, por qual motivo suas histórias sempre acabavam mal. Depois de um longo período sabático, refletiu que, talvez, seus envolvimentos pretéritos tenham fracassado por seu excesso de doação. Então, decidiu virar o jogo. Chega de mimos e transparências reveladoras em inícios de relacionamentos, pensou ela. Enfim, aquela mulher sensível, linda e inteligente recobrara sua plenitude. Estava confiante e segura de si; parecia mesmo outra pessoa. O estranho foi observar sua dedicação e sua doçura repentinas, após tantas promessas íntimas, a mimos anteriormente renegados; ela estava fazendo tudo o que tinha resolvido banir – preparava, com amor, cada refeição dele, arrumava sua cama, gastava horas com 'conversinhas moles' e brincadeiras. Das duas uma: ou ele merecia muito aquela devoção toda ou sua transformação causara uma firmeza tão inabalável que foi capaz de mudar diametralmente o seu ponto de vista; pode ser que, agora, ela estivesse conseguindo se dar sem se doer. Aquela situação era simplesmente uma grande incógnita, quase como um objeto sem sombra na mais escancarada das manhãs de sábado. Especulações à parte, o fato é que Ulisses era mesmo um labrador de sorte – apenas ele conheceu a melhor das 'Isabelles', harmoniosa, meiga e convicta.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

VOCÊ É BOLO COMUM?

A todo instante, a vida nos surpreende com situações inusitadas. Muitas vezes, discutimos, brigamos, aborrecemo-nos, decepcionamo-nos e, no momento seguinte, arrependemo-nos, perdoamos, fazemos as pazes. Elaboramos conceitos complicados sobre coisas e pessoas e, simplesmente, mudamos de opinião. Abandonamos cursos, acabamos namoros, engatamos novos relacionamentos, tiramos pedras do caminho, perdemos pessoas queridas, fazemos amigos e também os deixamos partir. Tudo isso faz de nossa experiência um caso isolado, uma trajetória sem precedentes, um caminho trilhado a partir dos nossos erros e acertos.

Somos seres absolutamente distintos vivendo em um mundo feito sob uma medida específica – “tamanho único”. Assim, modelamos nossa natureza primitiva e até conseguimos racionalizar nossos instintos, como forma de tentar conviver socialmente em um espaço sem variações – “P”, “M” ou “G”. Mas viver transcende os limites da razão.

Mesmo sendo educados para viver em conformidade com uma série interminável de ditames sociais, quebramos regras, excedemo-nos, violamos princípios, esquecemo-nos de pensar no próximo e ultrapassamos as fronteiras da moral e da ética.  Ok! Somos, segundo os valores cristãos, pecadores, pois não conseguimos viver em harmonia com aqueles mandamentos que, antes de figurarem como máxima religiosa, representam verdadeiras normas de conduta, regras do bom viver.

Pecamos sim, é verdade. No entanto, nossos pecados não são análogos, uma vez que somos seres diferentes pela própria natureza. Não carregamos a mesma carga genética, não fomos criados pela mesma família, não estudamos no mesmo colégio, não tivemos os mesmos amigos, não levamos os mesmos tombos, não quebramos a cara com as mesmas coisas.

Assim, toda teoria que generaliza demais fraqueja! Sim, repetimos comportamentos, mas isso não nos torna iguais. Respiramos, alimentamo-nos, bebemos água, excretamos e secretamos substâncias, dormimos, eliminamos gases, suamos, amamos, desamamos, choramos, sorrimos, nascemos e vamos morrer um dia. Ainda assim, não somos seres idênticos.

Por tudo isso (e muito mais), abomino os comentários genéricos, pois levam sempre ao geral, a características/elementos/teses supostamente universais.  Se a verdade se resumisse a essa aparente simplicidade, viveríamos vidas previsíveis e medíocres; todos os cachorros seriam amigos, todos os gatos traiçoeiros, todas as mulheres interesseiras, todos os homens “galinhas”, todos os homossexuais extravagantes, todos os políticos corruptos e todas as guerras seriam santas.

Qual graça teria a vida? Viver assim eliminaria a nossa essência de singularidade; seríamos produzidos em série, com extensos códigos de barra e um único manual de instrução. Somos ímpares justamente por nossas histórias peculiares, nossas experimentações incomuns e pela bagagem sempar que carregamos.

Para alguns, somos apenas a compilação de um conjunto pré-estabelecido de padrões reiterados que foram sendo repetidos ao longo de toda a história da Humanidade. É claro que não somos seres inteiramente dissociados desse contexto, mas não podemos com ele ser confundidos. Não somos apenas isso. Pelo menos para mim, definitivamente não somos! Todavia, como meus postulados não encerram a verdade absoluta, termino com uma reflexão pessoal e intransferível:  Você é bolo comum?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

OS DESAFIOS DO AMOR


Por que teu olhar liberta?
Por que me enfeitiçou desse jeito?
Por que tua flecha é tão certa?
Por que esse aperto em meu peito?

Por que me perco em pensamentos?
Por que só sigo teus passos?
Por que há o teu brilho no firmamento?
Por que temo o fracasso?

Por que suplico tua atenção?
Por que entrego minha alma?
Por que desbaratino meu coração?
Por que perco minha calma?

Por que não entendo o Amor?
Por que renuncio à razão?
Por que esperar é dor?
Por que és a solução?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

PERVERSA ANSIEDADE


Ah, esse jeito canhestro
Essa visão torta do mundo
Sinfonia sem maestro
Sofrimento profundo
  
Carrascos pensamentos reiterados
Máscara negra da ansiedade
Retratos não revelados
Um quarto sem claridade
  
 Todavia, viver não é exato
Entrego-me, então, ao daqui pra frente
Esmero-me no sensato
E fujo do descrente
  
Escolho abraçar a esperança
Abandono as dores sem causa
Prefiro apostar na mudança
A padecer num martírio sem pausa

sexta-feira, 29 de julho de 2011

SEM PARAR

Olhou para o lado
E viu-se só
Chorou, chorou, chorou
Até encher sua esquife
Depois, banhou-se com as lágrimas recolhidas
Revigorou-se com a lição de suas dores
E seguiu em frente

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

PONTUALMENTE

Primeiro, estendeu-lhe a mão
Depois, beijou-lhe a face
No momento seguinte, enfiou-lhe uma faca nas costas
Para, finalmente, servir o chá.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

RUPTURA

Minha roseira virou ruína.
De que vale todo o meu rompante
Se até o resto me rechaça?
O pior é que me retorço,
Desfaço-me em retalhos.
Repagino o rótulo e
Até retoco minha retórica,
Mas meus recados rebeldes
Só me trazem mais rusgas.
Apagou-se meu talento para rimas.
Das reverberantes risadas,
Restaram roucos ruídos.
Em meu rosto, seguem os ranços
De todas as minhas réplicas.
Nem mesmo as cores de Rembrandt
Ou as palavras de Rimbaud
Fariam reluzir meu retrato.
Mas viver não é ruminar.
Viver é ter sabedoria para reformular o roteiro
Toda vez que ressoarem as ranhuras.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

POSTURA


Seu caminho você que escolhe
Não chore
Não implore
Não demore
Senão o mundo te tolhe
O medo te encolhe
E a vida te engole

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

VIDA POENTE


Uma voz abafada,
Um desvelo ausente
Num murmúrio dolente.
De que vale um reconhecimento silente
Se apenas amarga os corações descrentes
Com sensações incongruentes?
O que seria das flores
Não fossem as sementes?
Ou mesmo dos sorrisos
Não fossem os dentes?
Melhor uma dor que se sente,
Porque até com ela se aprende,
Do que o vazio de uma vida poente.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

MEU CAVALO E NOSSAS ESCOLHAS


Amarrei meu cavalo em uma árvore
Alta, verdinha e respeitosa,
Frondosa como poucas...
Suntuoso chapéu natural
A nos proteger das intempéries.
Até que vivíamos bem,
Eu e meu cavalo.
Desgraçadamente, mesmo sentindo
Todas as particularidades da planta
Em franca conspiração a nosso favor,
Não conseguíamos gostar de seu fruto.
Várias vezes pensamos em abandonar
O seguro e acolhedor abrigo.
No entanto, em laudável ato de bom senso,
Ponderávamos sempre:
É possível ter tudo?
Foi o que nos salvou!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O BALANÇO


Era uma vez uma rede
E o pé recostado numa parede
Num balanço que parecia ter sede
De descobrir o mundo fora daquele quarto
Aparentava estar farto
Cansou-lhe demais o parto
Porque antes da partida, da batida, da lida
Ou até mesmo de ser pessoa querida,
Aquele balanço só ansiava por vida.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

DE VOLTA PRA MIM

O vento que sopra
A coruja que pia
Uma porta que bate
Nessa noite sombria

Uma nau que navega
Nesse mar de ser só
Foi assim que viemos
É assim que é no pó

Daí nasce o medo
A existência vazia
Solidão que assusta
Temor que arrepia

Só então vem a aurora
E, com ela, a esperança
Do futuro sonhado
E, com ele, a mudança

Uma alma liberta
Abandonou a escolta
Adeus, vida cativa
Pássaro que se solta

Mas nem tudo é quimera
Tampouco coração
Melhor enxergar a verdade
Do que viver de ilusão

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A CARNE

Farto banquete é
A carne...
Lasciva, sequiosa!
Entre pernas, suor e saliva
Pêlos que se alinham na
Obediente marcha do arrepio,
Sobre a mais irregular
E desejada superfície
A pele...
Comandante aclamada
Da biologia das moléculas e
Da química das reações
Por decerto, até a física quântica
De Einstein
Curvar-se-ia diante dela.
E em meio a um emaranhado de fios,
A língua em botões e
Lanças em rosas,
O fogo, em soberana atuação,
Consome o solo
E sorvemos, então,
A saciedade do corpo.